Genes e remédios: como farmacocinética e farmacodinâmica importam
- Dr. Albert Mojzeszowicz

- 26 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de mai.
Autor: Dr. Albert Felipe Mojzeszowicz Psiquiatra │ CRM-SP 175671 │ RQE 87037 Atualizado em: Abril de 2026 |

O que é farmacocinética? É a velocidade das reações de uma substância no nosso corpo. Inclui a eficiência com que enzimas “desmontam” os medicamentos e sua concentração no organismo ao longo do tempo. Diferencia-se da farmacodinâmica, que envolve as interações nos alvos do medicamento (receptores, transportadores, canais iônicos). |
Farmacocinética vs. farmacodinâmica: duas dimensões da resposta ao remédio
Quando um medicamento falha ou causa efeitos adversos inesperados, o problema pode estar em dois lugares completamente diferentes:
1. No que o organismo faz com o remédio (farmacocinética): absorção, distribuição, metabolismo, eliminação. Aqui entram os genes das enzimas hepáticas.
2. No que o remédio faz no organismo (farmacodinâmica): como o medicamento se liga a receptores, canais iônicos, transportadores. Aqui entraria o gene que codifica, por exemplo, o transportador de serotonina (SERT) – mas esse teste ainda não tem aplicação clínica.
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Analogia clínica útil A farmacocinética genética é análoga a interações medicamentosas — e por boas razões: ambas afetam o nível do fármaco no sangue. Se um medicamento A inibe a enzima que metaboliza o medicamento B, o nível de B sobe. Se o gene de um paciente produz uma enzima lenta para o medicamento B, o efeito é o mesmo. Por isso, quando você vê alertas de interação medicamentosa no prontuário eletrônico, pense: 'meu paciente geneticamente já pode ser esse inibidor'. |
Por que a maioria das interações gene-medicamento não importa na prática?
A maior parte dos psicofármacos tem janela terapêutica ampla. Isso significa que há bastante margem entre a dose eficaz e a dose tóxica. Se a enzima é um pouco mais lenta, o nível do remédio sobe — mas ainda dentro da faixa segura. O paciente não sente diferença.
Além disso, o metabolismo hepático tem redundância: muitos medicamentos são processados por múltiplas enzimas. Se a CYP2D6 está lenta, a CYP3A4 pode compensar. O sistema não colapsa diante de uma variante isolada.
Portanto, a farmacogenômica clínica não é uma ferramenta para todos os pacientes e todas as prescrições. É uma ferramenta para situações específicas — e conhecer essas situações é a competência central.
Quando a farmacocinética genética realmente faz diferença?
Os grupos que estabelecem as diretrizes clínicas (CPIC e FDA) definiram critérios objetivos: para entrar na lista de interações clinicamente relevantes, é preciso evidência de que a variação genética pode comprometer significativamente a segurança ou a eficácia do medicamento.
Na psiquiatria, as situações em que isso ocorre com mais frequência envolvem:
Situações de atenção clínica em farmacogenômica Medicamentos com janela terapêutica estreita (ex: pimozida, antidepressivos tricíclicos, tioridazina). Medicamentos que prolongam o intervalo QTc: quando atingem níveis altos por acumulação em metabolizadores lentos, o risco de arritmia fatal (torsades de pointes) aumenta significativamente. Medicamentos com efeitos adversos graves em pico de concentração: atomoxetina (Atentah®) — sedação intensa em metabolizadores lentos de CYP2D6. Medicamentos com risco de reação alérgica grave: carbamazepina em portadores do HLA-B*1502 (risco de rash grave por reação imunológica). |
A lógica da lista de ação
O Dr. Chris Aiken, professor assistente da NYU e editor do Carlat Psychiatry Report, propõe uma abordagem prática: manter uma lista de medicamentos para os quais a variação genética pode mudar sua conduta. Se um paciente telefonar relatando efeito adverso grave ou ausência de resposta com um desses medicamentos, a hipótese de variante genética entra no raciocínio diferencial — e um teste pode ser solicitado a posteriori.
Nos próximos posts, vemos quais são esses medicamentos — e os três genes que cobrem a maior parte do território.
Leia também neste mini-curso: Farmacogenômica: seu DNA influencia como seu remédio age (Post 1) | CYP2D6, CYP2C19, CYP3A4: os três genes (Post 3) | Carbamazepina e o gene HLA-B*1502 (Post 4)
Outras categorias relacionadas: Uso racional de medicamentos psiquiátricos (categoria: Medicamentos)
Referências Aiken CB. Pharmacogenomics in Psychiatric Practice Podcast. Psychopharmacology Institute, jan/2026. <acessado 21/abr/2026>. Relling MV, Evans WE. Pharmacogenomics in the clinic. Nature, 2015. CPIC Guidelines at cpicpgx.org. Stingl, J., Brockmöller, J. & Viviani, R. Genetic variability of drug-metabolizing enzymes: the dual impact on psychiatric therapy and regulation of brain function. Mol Psychiatry 18, 273–287 (2013). Zanger UM, Schwab M. Cytochrome P450 enzymes in drug metabolism. Pharmacology & Therapeutics, 2013. |




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