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Remédio para ansiedade: quando é necessário e como funciona

  • Foto do escritor: Dr. Albert Mojzeszowicz
    Dr. Albert Mojzeszowicz
  • 8 de mar.
  • 4 min de leitura
Foto do Dr. Albert com uma camisa branca contra um fundo verde

Autor: Dr. Albert Felipe Mojzeszowicz

Psiquiatra | CRM-SP 175671 | RQE 87037

Atualizado em: Março de 2026

Quando o remédio para ansiedade é necessário?

O tratamento farmacológico da ansiedade é indicado quando o transtorno causa sofrimento significativo ou prejuízo funcional, especialmente em quadros moderados a graves, quando a resposta à psicoterapia isolada é insuficiente, ou quando a intensidade dos sintomas inviabiliza o engajamento terapêutico. A decisão é sempre individual e feita por médico.


O equívoco dos extremos

Existe uma polarização equivocada no modo como muitas pessoas encaram a medicação para ansiedade. De um lado, a resistência absoluta: "não quero depender de remédio", "prefiro resolver na força da vontade". Do outro, a demanda por solução química imediata para qualquer desconforto emocional. Nenhuma dessas posições é adequada clinicamente.


Os medicamentos para ansiedade, quando bem indicados, não eliminam a capacidade de sentir, não embotam a personalidade e não criam dependência de forma inevitável — mas exigem prescrição, acompanhamento e uso racional. Quando mal prescritos, podem não trazer benefício maior do que um placebo e ainda causar efeitos colaterais importantes. A avaliação psiquiátrica existe exatamente para fazer esse tratamento de modo seguro, sem sustos.


Quais são os principais medicamentos para ansiedade?

Os antidepressivos da classe dos ISRSs (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) — como escitalopram, sertralina, fluvoxamina e fluoxetina — são hoje a primeira linha de tratamento farmacológico para a maioria dos transtornos de ansiedade: TAG, transtorno de pânico, fobia social e TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Apesar do nome “antidepressivo”, seu efeito ansiolítico é bem estabelecido e independente da presença de depressão.


Os IRSNs (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina), como venlafaxina e duloxetina, também têm eficácia comprovada para ansiedade generalizada e transtorno de pânico. Sua ação sobre a noradrenalina pode ser particularmente útil em casos com componente físico proeminente, como tensão muscular e fadiga.


Benzodiazepínicos: benefícios e riscos

Os benzodiazepínicos — diazepam, clonazepam, alprazolam, entre outros — são ansiolíticos de ação rápida. Agem potencializando o efeito inibitório do GABA no sistema nervoso central, produzindo sedação, relaxamento muscular e alívio da ansiedade em minutos. São ainda anticonvulsivantes potentes!. São úteis em situações agudas, como crises de pânico intensas ou períodos de descompensação grave.


No entanto, seu uso crônico é contraindicado pelos riscos envolvidos: tolerância (a dose eficaz tende a aumentar com o tempo), dependência física e psicológica, prejuízo cognitivo, e dependência (a interrupção abrupta pode causar uma síndrome de abstinência semelhante a um ataque de pânico). Por isso, as diretrizes internacionais recomendam seu uso por períodos limitados, como um tampão para estancar um sofrimento muito agudo enquanto o tratamento principal (ISRS ou IRSN) ainda não alcançou efeito pleno.


Como funcionam os ISRSs no cérebro?

Os ISRSs inibem (“atrapalham”) a proteína transportadora responsável pela recaptação da serotonina na fenda sináptica[1], aumentando a disponibilidade desse neurotransmissor. A relação entre serotonina e ansiedade é complexa — não se trata de um simples déficit a ser corrigido, como se costumava divulgar de forma simplória. O efeito terapêutico ocorre ao longo de semanas e envolve neuroadaptações que vão além do aumento imediato de serotonina: inclui interações com BDNF, (brain-derived neurotrophic factor) GABA, glutamato e dopamina.


Isso explica por que os ISRSs demoram até seis semanas para produzir efeito ansiolítico pleno — e por que não devem ser interrompidos abruptamente. A descontinuação gradual é necessária para evitar síndrome de retirada.


[1] Curiosidade: Nenhum dos 80.000.000 (oitenta bilhões) de neurônios se encostam. Eles terminam 20 nanômetros do próximo neurônio. Esse “espacinho” chama “fenda sináptica”.


Medicação e psicoterapia: adversários ou aliados?

Essa é uma falsa dicotomia. A evidência científica mais robusta aponta que, em transtornos de ansiedade moderados a graves, a combinação de farmacoterapia e psicoterapia produz resultados superiores a qualquer uma das abordagens isoladas. A medicação pode reduzir a intensidade dos sintomas a um nível que torna o trabalho psicoterapêutico possível; na psicoterapia o paciente “descobre seus gatilhos” e tenta aprender a desarmá-los.


Não existe resposta única para todos. Alguns pacientes se beneficiam primariamente de psicoterapia. Outros precisam de suporte farmacológico. Muitos precisam de ambos. A avaliação individualizada, que considere todo o contexto familiar, social, antecedentes familiares e histórico médico completo com exames recentes é insubstituível. Se puder trazer na consulta um parente da família nuclear, melhor.


Referências

American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5. ed. Arlington: APA, 2013.

Kaplan, H.I.; Sadock, B.J. Compêndio de Psiquiatria. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

Bandelow, B. et al. Treatment of anxiety disorders. Dialogues in Clinical Neuroscience, 2017.

Baldwin, D.S. et al. Evidence-based pharmacological treatment of anxiety disorders. International Journal of Neuropsychopharmacology, 2014.

Kroeze Y, Zhou H, Homberg JR. The genetics of selective serotonin reuptake inhibitors. Pharmacol Ther. Dec;136(3):375-400. 2012.


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