O que é ansiedade de verdade? Médico psiquiatra explica
- Dr. Albert Mojzeszowicz

- 7 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de mar.
![]() Autor: Dr. Albert Felipe Mojzeszowicz Psiquiatra | CRM-SP 175671 | RQE 87037 Atualizado em: Março de 2026 |
O que é ansiedade? Ansiedade é uma resposta emocional e fisiológica antecipatória diante de ameaças percebidas, sejam reais ou imaginárias. Envolve ativação do sistema nervoso autônomo, sentimento de medo e comportamentos de evitação. Quando desproporcional ou persistente, pode configurar um transtorno mental. |
Ansiedade como função biológicaA ansiedade, antes de ser problema, é solução. Do ponto de vista evolutivo, trata-se de um mecanismo de alarme que prepara o organismo para responder a situações de perigo, o que a literatura descreve como resposta de luta ou fuga (“fight or flight”), mediada em grande parte pela amígdala cerebral e pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Sem algum grau de ansiedade, nossa sobrevivência estaria em perigo. O coração acelera, os músculos se contraem, a atenção se afunila — o corpo todo se mobiliza para agir. O problema começa quando esse sistema se ativa fora de proporção, fora de contexto ou de forma persistente, sem que haja uma ameaça real correspondente. Nesse ponto, o mecanismo de defesa torna-se fonte de sofrimento. |
O que a ansiedade não éÉ comum confundir ansiedade com nervosismo ocasional, preocupação legítima ou até com traços de personalidade como perfeccionismo ou sensibilidade emocional. Embora esses estados possam coexistir, eles não são sinônimos. A ansiedade clínica se distingue pela intensidade, pela duração e, sobretudo, pelo grau de comprometimento que impõe à vida cotidiana (relações, trabalho, sono, dieta, tudo é afetado). Também é preciso resistir ao reducionismo oposto: nem toda ansiedade é doença. Sentir apreensão antes de uma apresentação importante, preocupar-se com a saúde de um filho, antecipar mentalmente um evento incerto — tudo isso pertence ao registro do humano. A psiquiatria não patologiza a vida; ela distingue sofrimento normal de transtorno. Essa distinção exige avaliação cuidadosa e contextualizada. |
Quando a ansiedade se torna transtorno?Os critérios diagnósticos do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5.ª edição) e da CID-11 estabelecem que, para configurar um transtorno de ansiedade, os sintomas devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida. A duração mínima varia conforme o transtorno específico — seis meses para o transtorno de ansiedade generalizada, por exemplo (ou, no caso de adolescentes, 4 semanas). Os transtornos de ansiedade compõem um grupo heterogêneo: ansiedade generalizada, transtorno de pânico, fobias específicas, ansiedade social, agorafobia, entre outros. Cada um tem uma fenomenologia própria, embora compartilhem o mesmo substrato neurológico. |
Sintomas físicos: o que o corpo falaA ansiedade não é apenas um estado mental, mas se manifesta com expressão corporal inequívoca: palpitações, dispneia, aperto no peito, tensão muscular, sudorese, boca seca, desconforto gastrointestinal, sensação de nó na garganta, tontura e tremores são queixas frequentes. Muitos pacientes chegam ao consultório médico após passarem por uma bateria de exames clínicos que nada revelam, sem perceber que o corpo está expressando, com linguagem somática, uma experiência psíquica. Isso não significa que os sintomas físicos sejam "imaginários" ou menos reais. Pelo contrário: eles são reais, mensuráveis, e podem ser incapacitantes. Note bem. O feocromocitoma é um tipo raro de tumor endócrino que secreta adrenalina, e pode mimetizar uma crise ansiosa com os mesmos sintomas descritos no parágrafo anterior. Como um sintoma “da cabeça” pode ser imitado com uma dose extra de adrenalina? Não pode. A tensão muscular dói na carne, seja qual seja a origem da tensão. |
Como é feito o diagnóstico de ansiedade?Infelizmente não existe exame de sangue, imagem ou marcador biológico que confirme ou exclua um transtorno de ansiedade. O diagnóstico é clínico. O psiquiatra realiza uma entrevista estruturada, levanta a história clínica e pessoal, e afasta outras condições médicas que possam mimetizar os sintomas — como hipertireoidismo, arritmias ou uso de certas substâncias. A avaliação também leva em conta o contexto de vida do paciente. Ansiedade não acontece no vácuo: relações, trabalho, história de vida, traumas, estilo de apego — tudo isso contribui para a compreensão do quadro. |
Ansiedade tem tratamento?Sim, e com bons índices de resposta. As abordagens terapêuticas comprovadas incluem psicoterapia e, quando indicado, tratamento farmacológico. Em muitos casos, a combinação das duas modalidades produz resultados superiores a qualquer uma isoladamente. O tratamento não significa eliminar a ansiedade, o que seria impossível e indesejável. O objetivo é restaurar a proporcionalidade — que o alarme interno volte a funcionar como instrumento, não como tortura. |
Leia também neste mini-curso: Ansiedade ou nervosismo? Como diferenciar (Post 2) | Ansiedade generalizada: sintomas, diagnóstico e tratamento (Post 3) | Remédio para ansiedade: quando é necessário e como funciona (Post 5) Outras categorias relacionadas: O que é depressão? Psiquiatra explica (categoria: Depressão)
|
Referências American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5. ed. Arlington: APA, 2013. Kaplan, H.I.; Sadock, B.J. Compêndio de Psiquiatria: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. Bandelow, B. et al. Efficacy of treatments for anxiety disorders: a meta-analysis. International Clinical Psychopharmacology, 2015. |

